Automestria: quando a vida deixa de ser conduzida por fora
- Sabina Secchin Scardua
- 11 de abr.
- 3 min de leitura

Um olhar sobre controle, ilusão, verdade e o caminho de retorno à essência
Automestria é a prática de desenvolver um profundo domínio sobre si mesmo. Não é um estado — é um processo contínuo e intencional. Envolve autoconsciência, autodisciplina, autocontrole emocional, autoeficácia e autoconfiança.
Na visão mística, automestria é o processo pelo qual o ser humano assume o comando de sua jornada espiritual, despertando a própria essência e cultivando uma conexão profunda com o eu interior — ou “eu superior”.
É o momento em que o ser humano começa, de fato, a assumir a própria experiência de existir. Não como ideia, não como conceito, mas como prática interna.
A condução da vida deixa de ser terceirizada — para o ambiente, para os outros, para o tempo — e passa a ser, pouco a pouco, retomada pelo próprio ser.
E se você, assim como eu, alguma vez pensou "já chega, estou farta, vou viver no meu próprio mundo, com minhas próprias regras, f#d@-$e!" - infelizmente não é disso que estou falando, não é tão fácil assim, e automestria não tem nada de radical.
Quem eu sou e qual o meu propósito
Alguns buscam o amor. Outros, a felicidade. Outros, segurança. Alguns ainda dizem buscar a paz.
São todas sensações efêmeras em nosso mundo.
O que realmente buscamos é o domínio de si mesmo — e, como consequência, a paz, o amor e a plenitude advindos disso. Ou, ainda, a autossuficiência responsável pela ausência de busca.
A falta de consciência do que somos feitos gera uma vida desintegrada. Somos muitos em nós — e com interesses diferentes.
Há o corpo físico, com suas necessidades concretas.
Há o emocional, com suas memórias e reações.
Há o mental, com suas crenças, construções e narrativas.
Há o energético, o espiritual…
E raramente esses níveis estão em harmonia.
Vivemos, então, uma vida fragmentada.
A dança das ilusões
Aprendemos a não ceder a impulsos. Aprendemos a moralidade, a ética, a civilidade. A cultura do que é certo e do que não é certo fazer, comer, dizer — e até pensar.
São tantas leis, tantas regras, tantas crenças…E tudo vai ficando anuviado, escuro, difícil, confuso — e, muitas vezes, triste.
Há tantos movimentos superficiais e sem sentido que já não nos damos conta.
Uma vez, uma pessoa me disse que estava assustada consigo mesma ao perceber o quanto estava estressada por não ter comprado sal.
Ela vivia orientada por listas de tarefas. Seu propósito no dia era dar “check” em tudo. Mas, de repente, percebeu que, na mesma lista, estavam: pagar uma conta, entregar um trabalho importante, tomar um remédio, buscar o filho na escola — e comprar o sal.
Tudo tinha o mesmo peso.
Ela não diferenciava mais o essencial do irrelevante.
É chocante — mas extremamente comum.
Não sei se foi um coach ou um filósofo que disse: “não confunda o que é urgente com o que é importante”. Mas, no fim, essa confusão vai se tornando o próprio tecido da vida.
Metas são traçadas. Objetivos são perseguidos. Planos são cumpridos. E, ainda assim, algo permanece desalinhado.
Porque grande parte desses movimentos não nasce de dentro.
Enquanto vigiamos as horas do relógio, precisamos ser solícitos, simpáticos, bons vizinhos, presentes na família, funcionais em todos os papéis.
Estamos presos — para dizer o mínimo.
E tudo isso banhado por uma sensação de disposição e vontade.
Mas vontade de quê, exatamente? Para quê?
Reformar a cozinha, comprar um apartamento, dar qualidade de vida aos meus filhos, fazer um lindo natal…E seguimos nos movendo como pessoas focadas e motivadas.
E, nesse movimento vão anos.
Enquanto cumpre meta, também espera.
Espera para se aposentar.
Espera o filho crescer.
Espera a situação melhorar.
Espera o momento certo.
Espera o Universo mostrar.
E, nesse esperar, vidas inteiras passam.
A automestria não está nessas buscas.
Ela começa quando o olhar se volta para dentro — não para se analisar, mas para se encontrar.
Não para se ajustar ao mundo, mas para compreender a própria natureza e conhecer a própria essência.
Estar atento a si mesmo não é egoísmo, nem perversidade. É um caminho.
Talvez não o único — mas um caminho.
E a automestria, quando acontece, traz luz. Traz amor. Traz compaixão.
Não como objetivo direto — mas como consequência.
Não há autorrealização sustentada vivendo apenas o “certo aprendido”.
Há uma sabedoria instintiva que não está sendo ouvida.
Todos buscamos amor ou poder, mas é sobre amor a si mesma e poder interno.
Há tantos mal-entendidos.
A jornada da vida pode ser cruel e cheia de enganos quando estamos focados somente no exterior.
É um grande mistério afinal, mas é importante estar aberto e atento. Tornar-se capaz de sustentar a própria verdade, até que tudo que é real encontre espaço para existir.
Qual é a sua verdade?
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